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Artigo

08.11.2019 - Artigo

Artigo de opinião do Embaixador da Alemanha, Dr. Martin Ney publicado no Expresso (9.11.2019) por ocasião dos 30 anos da queda do Muro de Berlim.

“Em todo o começo reside um encanto…“

Não há palavras melhores do que as de Hermann Hesse, Prémio Nobel de Literatura, para descrever a noite em que o Muro de Berlim se desmoronou. Não só se desvaneceu repentinamente o medo de inúmeros alemães em relação às represálias da ditadura comunista, como também se instalou uma sensação indescritível de liberdade, sentida por milhões de pessoas. Pela primeira vez, visavam um futuro promissor e repleto de novas oportunidades. Terá sido semelhante o sentimento de muitos portugueses na revolução pacífica do 25 de abril. Também em Portugal implodiu um regime opressor, corroído no seu interior.

Embora tenham passado décadas, o encanto do começo pode ser vivido e sentido ainda nos dias de hoje. Em 1989, encontrava-me destacado na Tailândia e, nessa manhã do dia 10 de novembro, sem acesso às notícias, em desconhecimento das ocorrências. Foi um amigo meu, um jornalista norte-americano, que me trouxe as excelentes novidades. Ficámos colados ao nosso rádio multibanda, fascinados e em estado eufórico. E o resto, como se diz, é história – que, de certo modo, também ajudei a moldar como conselheiro jurídico nas negociações do Tratado Dois-Mais-Quatro da parte da Alemanha Ocidental.

“Foi bonita a festa, pá"

Para os meus compatriotas e para mim, a divisão da Alemanha é sinónimo de Muro, de arame farpado, de sistemas de disparo automático – de tudo isto e muito mais, que tão cruelmente separava famílias e amigos. Esta divisão representava uma ferida aberta no meio do nosso continente, quando a Europa já tinha sido dilacerada por duas Guerras Mundiais. A queda do Muro de Berlim foi há precisamente 30 anos e constitui um marco histórico de viragem: por fim, a unidade da Alemanha e da Europa tornou-se realidade. Constato, com satisfação, que países anteriormente em conflito criaram no presente uma união forte e são parceiros na NATO.

Estes últimos 30 anos demonstram claramente que sociedades divididas podem coalescer. Sem esquecer que, unir dois sistemas políticos e económicos tão fundamentalmente diferentes, requer enorme coragem e constitui um desafio extraordinário. Não havia manual de instruções! Todo este processo envolvia custos significativos. Atingimos o objectivo de criar condições de vida equivalentes para todo o país – embora subsistam certas diferenças regionais, como, aliás, sempre existiram na antiga República Federal. Mas, há feridas que demoram a cicatrizar e, por isso, considero indispensável o dever da memória, sem esquecer os caminhos erróneos do passado.

Os acontecimentos de Berlim assinalaram ao mundo que uma revolução sem sangue é possível! Este novo despertar de 1989, colocou-se sob o signo da esperança, mais ainda, sob a expectativa de que tudo ia melhorar. Eu próprio e muitos outros acreditámos na possibilidade de um espaço de paz que iria desde Vancouver até Vladivostok com base na Democracia e nos Direitos Humanos e dotada de uma ordem mundial estável, baseada em regras. Neste contexto, chegou mesmo a falar-se no “fim da história”.

“Já murcharam tua festa, pá“

No entanto, hoje, exactamente 30 anos depois, o nosso mundo está tão desequilibrado e conturbado como há muito não estava. Com o fim do Muro -o equilíbrio do terror em betão- despedaçou-se também alguma certeza. Novos e antigos protagonistas disputam o poder de influência, como actualmente na Ásia onde até recentemente, exerci funções como Embaixador em Nova Deli. Enfrentamos grandes desafios, como a mudança climática, migrações e o terrorismo – desafios que poem à prova a nossa capacidade de intervenção como comunidade mundial. A anexação ilegal da Crimeia está em flagrante contradição com o conceito de uma “casa comum europeia” promovido na altura por Mikhail Gorbachev. Ainda existem muros, em vários lugares do mundo, que separam o ser humano – e muros invisíveis que bloqueiam as mentes de muitas pessoas. Até mesmo no seio das nossas sociedades, instalaram-se dúvidas a respeito das nossas conquistas: o processo de integração europeia, as nossas fronteiras abertas, e, as próprias regras básicas da Democracia são postas em causa, inclusive na Europa.

Temos de admitir que a Europa, lamentavelmente, não é um dado adquirido e precisa do nosso empenho activo! Pois, a União Europeia é essencial para garantir a segurança, a prosperidade e a paz do nosso continente. O importante é termos instrumentos à disposição para estabelecer uma ordem e salvaguardar o nosso património mais precioso: a paz e a liberdade. Por vezes é necessário um árduo passo a passo para que se encontrem soluções. A diplomacia exige tempo e paciência. Para que se possa conceber uma nova ordem é, ademais, necessário ter capacidade criadora. A liberdade implica sempre responsabilidade. A Chanceler alemã, Angela Merkel, tem razão quando afirma que a Europa deve tomar o seu destino nas suas próprias mãos.

#MultilateralismMatters

Em tempos complicados como este, a Alemanha pretende dar novos impulsos ao multilateralismo eficaz, nomeadamente, através da sua colaboração no Conselho de Segurança da ONU em 2019/20. Estou convencido de que, indo ao encontro uns dos outros de espírito aberto e com dedicação, podemos tornar o Mundo mais pacífico, mais estável e mais seguro – e preservá-lo para as gerações futuras. Ao seguir esta abordagem, o Ministro das Relações Externas alemão, Heiko Maas, defende a denominada “Aliança para o Multilateralismo”. Os países que partilham dos mesmos valores devem unir-se quando regras e instituições internacionais estão a ser atacadas, como a arquitectura de direitos humanos ou acordos internacionais de controlo de armamentos. Como Embaixador da Alemanha em Lisboa, apraz-me poder contar com Portugal como parceiro confiável e que compartilha as mesmas ideias. O nosso plano de acção bilateral, assim como o trio das Presidências do Conselho em 2020/21 irá propulsionar ainda mais esta nossa relação.

O dia 9 de novembro de 1989 assinala, certamente, uma efeméride histórica que merce ser celebrada. Ainda hoje admiramos a coragem dos cidadãos que, tão fervorosamente se empenhavam em prol da liberdade e pelo fim da confrontação entre os dois blocos. A alegria incomparável dos cidadãos na Alemanha e na Europa, que após décadas de separação, se abraçavam novamente, deve servir como exemplo de encorajamento, a despeito de todos os reveses e dúvidas. Até mesmo conflitos congelados reagem à vontade de mudança do ser humano. Tenho a certeza de que valores como a Democracia, o Estado de Direito, a Liberdade de Expressão assim como a diversidade vão prevalecer também no século XXI – requerem, porém, o nosso compromisso contínuo. Vamos, juntos, empenhar-nos nesse sentido!

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